Completamente a mercê

E novamente, ele estava a mercê dela.
A espera de seus beijos, de seus toques, de seus textos, de suas bobagens, de suas cobertas, de sua pele. Estava espera de que ela abrisse as portas para ele; as de seu coração, de seu apartamento, de seu quarto, de sua mente, as portas de qualquer lugar que se mantivesse fechada e o impedisse de entrar.
Ela era tudo que ele queria, tudo o que precisava.
A garota por sua vez, parecia não notar que ele havia se colocado em uma bandeja de prata, sob a mais bela caixa de presente e se dado a ela. Na verdade, dado seu coração; sem nenhuma dúvida, sem medo, sem hesitar.
Aquele órgão que muita gente acha que só serve para te manter vivo por bater freneticamente; o que o mantinha vivo era ela, vivo e cativo. Naquele musculo pulsante havia um amor imenso, regado de sonhos, de cores, de luzes, de formas, de sentimentos, de idealizações. Todos para ela. Guardados há muito tempo.
Ele poderia ter qualquer coisa, mas havia escolhido ela como prioridade.
Poderia ir embora se quisesse, mas havia escolhido ficar.
Poderia ter qualquer uma, mas havia escolhido aquela. De todas as flores existentes no vasto jardim do mundo, era ela que se apresentava uma rosa formosa, exalava o melhor perfume. Enchia seus olhos com sua graça. Deixava seu mundo mais bonito, sua vida colorida. Lhe dava inúmeros motivos para sonhar acordado, para não dormir direito, para sorrir em plena segunda feira, para enfrentar horas de transito caótico, para cantar a mais linda canção de amor que já fora feita, para escrever textos horas a fio, para querer aprender a dançar, para fazer uma serenata. Ela o encantava cada vez que mexia no cabelo, o arrebatava com aquele olhar meigo e sincero, despertava todos os seus desejos cada vez que mordia o lábio por estar tímida.
Poderia ficar a olhá-la durante o dia, a noite toda e não seria suficiente, pois em um piscar de olhos perderia um lindo segundo.
Poderia seguir outro caminho, evitar os encontros; mas preferiu os atalhos, somar os desencontros e enveredar por ali, junto dela para onde quer que fosse. Mesmo que isso pudesse levá-lo a lugar nenhum.
Voltou sua atenção para a amada, sua mudez era desconcertante.
O silencio palpável que se instalará sob os dois a deixou desconfortável. Não era boa com as palavras, nem com os sentimentos. Tinha medo de se entregar de novo e se quebrar em mais pedaços do que da última vez. A hesitação se fazia presente em suas ações e por mais que ela desejasse mostrar a ele como se sentia, desistia no último segundo. Sabia que não queria magoá-lo, mas o fazia ainda assim contra a sua vontade. Às vezes, não queria resistir, apenas calaria a voz da razão e se entregaria a emoção; mas não era como ele. Que não se importava em se machucar, em se refazer, em amar, em sofrer, em ser quebrado, dilacerado. Não importava como, ou qual situação, ele sempre se levantaria sorrindo. Sempre. E essa era uma das coisas que mais amava nele. Além de claro, ele saber interpretar entrelinhas e metáforas como ninguém.
Viu-o se aproximar da janela, pode observar que lá fora pessoas iam e vinham rapidamente. Como formigas vindo e indo ao formigueiro. Lentamente rumou até o parapeito parando ao seu lado. O vidro estava embaçado. Levou o dedo até a superfície gelada e desenhou um coração seguido de reticencias sob o olhar curioso do outro. Aos poucos viu um sorriso largo e sincero surgir no rosto que se aproximava do seu. Não desviou e nem deixou de sorrir. Logo, os lábios se tocaram e definitivamente palavras agora eram supérfluas.
Talvez essa fosse a melhor declaração de amor já feita. Não fora necessário textos decorados, frases roubadas ou discursos programados. Fora assim, repentinamente, improvisado, inesperado.
Exatamente, como o amor.