Meu filme póstumo

Quando eu estiver em meus últimos momentos, as memórias que irão ilustrar o filme de minha vida serão apenas as mais simples.
Não me importa e provavelmente não me lembrarei dos presentes caros que eu algum dia possa ter ganhado, ou então, do dinheiro que lutei tanto para ter.
Lutei tanto por ele, que a vida passou e eu nem vi.
Me lembrarei de meus momentos mais singelos, porém,
de extremo apreço e valor.

Como o dia em que te conheci, o seu sorriso tímido,
o quanto seu olhar brilhava enquanto você me dizia as coisas que você gostava e eu ficava me perguntando se alguma vez seus olhos brilhariam assim caso você falasse sobre mim.
O momento que você passou a notar minha existência.
Quando pegamos o mesmo ônibus de volta para casa e tomamos banho de chuva juntos e eu sem querer segurei sua mão. Acho que nunca vi alguém ficar todas as cores do arco iris ao mesmo tempo, e quando fiz menção de soltá-la você sorriu e a agarrou mais forte.

Nossa primeira ida ao cinema, nosso primeiro beijo atrapalhado, o dia em que me declarei e você fez o mesmo. Se eu já era feliz com o pouco, naquele momento me senti como se ganhasse cem vezes em algum jogo da loteria.
Nossa primeira das inúmeras noites de amor, o primeiro presente que você me deu e como você ficava deslumbrante com as coisas que eu te dava.
Nossos incríveis aniversários de namoro e nossas fotos desajeitadas que jaziam num mural em meu quarto.

Nosso casamento, aquele estava entre os momentos mais surreais ao seu lado.
Nossa casa, nosso lar.
Nossas viagens simples, muitas delas não planejadas.
Nossa rotina confortável e a vinda do nosso primeiro filho.
Às vezes em que brigamos, as reconciliações; acho que essa era a melhor parte, afinal eu não conseguiria dormir sem fazer as pazes com você e te abraçar bem forte.

Eu sempre admirei a forma de tudo ao seu lado ser leve, palpável, agradável.
Nunca esquecerei como nossas mãos se encaixavam e que sempre caminhamos lado a lado.
Não importa para onde fossemos, você estava ali do meu lado. Sempre. Você nunca desistiu de mim nem mesmo quando eu já havia desistido. Nos momentos bons e ruins, sempre juntos.
Eu era o alicerce e você o telhado de nosso lar, se caíssemos também seria juntos e ainda assim nós pegaríamos na mão um do outro, nos levantaríamos e seguiríamos em frente. Você sempre foi meu porto seguro, assim como eu era o seu.
Envelhecemos juntos assistindo nossa linda família crescer, procurando seguir um caminho como o nosso.

Mas, você foi embora primeiro, me deixando para trás.
Acho que você se esqueceu que havíamos feito a promessa de que morreríamos juntos, ou pelo menos, no mesmo dia, mas já faz longos três anos que você se foi... E agora chegou a minha vez, não faz sentido estar num mundo em que você não esteja.
Eu até tentei, mas sem você a vida não é vida, não tem graça, não é vivida.

E agora em meus últimos momentos preciosos a cena que encerra meu filme póstumo é aquela em que você aparece me olhando com seus grandes ternos olhos e aquele sorriso largo, meigo e reluzente que você sempre teve e que nunca mudou.
E desde agora eu me pego rezando e torcendo, se houver uma próxima vida, que eu tenha a mesma sorte dessa.

Que em algum momento eu possa te encontrar de novo e que a nossa história, que provavelmente será reescrita sob outra narrativa, seja tão linda quanto essa.